Adeus na hora da largada

Minha Mãe(todas as mães negrascujos filhos partiram)tu me ensinaste a esperarcomo esperaste nas horas difíceisMas a vidamatou em mim essa mística esperançaEu já não esperosou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe

a esperança somos nós

os teus filhos

partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje

somos as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia

somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos

com fome

com sede

com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos

Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz

os teus filhos Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

Vão em busca de vida.

Voz de Sangue

Palpitam-me

os sons do batuque

e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem…

ó dançarino de Chicago

ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto

a minha pobre voz

os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho

pelas emaranhadas áfricas

do nosso Rumo

Eu vos sinto

negros de todo o mundo

eu vivo a vossa Dor

meus irmãos.

Mussunda Amigo

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

Para aqui estou eu

Contigo

Com a firme vitória da tua alegria

e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!

O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé…

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos

em que íamos

comprar mangas

e lastimar o destino

das mulheres da Funda

dos nossos cantos de lamento

dos nossos desesperos

e das nuvens dos nossos olhos

Lembras-te?

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

A vida a ti a devo

à mesma dedicação ao mesmo amor

com que me salvaste do abraço

da jibóia

à tua força

que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo

a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes

compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto

o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência

nós somos!

Nós somos

Mussunda amigo

Nós somos

Inseparáveis

e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho

e no teu caminho

os corações batem ritmos

de noites fogueirentas

os pés dançam sobre palcos

de místicas tropicais

Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele…

Nós somos!

Quintandeira

A quitanda.

Muito sol

e a quitandeira à sombra

da mulemba.

– Laranja, minha senhora,

laranjinha boa!

A luz brinca na cidade

o seu quente jogo

de claros e escuros

e a vida brinca

em corações aflitos

o jogo da cabra-cega.

A quitandeira

que vende fruta

vende-se.

– Minha senhora

laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces

compra-me também o amargo

desta tortura

da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito

este botão de rosa

que não abriu

princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos

com que chorava

eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças

como foi o sangue dos meus filhos

amassado no pó das estradas

enterrado nas roças

e o meu suor

embebido nos fios de algodão

que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido

à segurança das máquinas

à beleza das ruas asfaltadas

de prédios de vários andares

à comodidade de senhores ricos

à alegria dispersa por cidades

e eu

me fui confundindo

com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas

como eu me ofereci ao álcool

para me anestesiar

e me entreguei às religiões

para me insensibilizar

e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor

e a poesia dos meus seios nus

entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.

– Compra laranjas

minha senhora!

Leva-me para as quitandas da Vida

o meu preço é único:

– sangue.

Talvez vendendo-me

eu me possua.

– Compra laranjas!



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